"Associados" - Um relatório
Roberto Cabot

 

Dia 29 de Junho de 2007 inaugurou-se a ocupação coletiva "Associados", um evento, um grande banquete colaborativo. Uma máquina de produzir poéticas que recebe o input anárquico de um coletivo flexível transformando-o através de inúmeros processos interpessoais em experiência de arte, em vivência estética.

A inauguração, de fato, representa só um momento da experiência. Como se estivesse endossando o sentido etimológico originário do termo "vernissage" (o momento em que se passa o verniz nas obras concluídas), com a inauguração o "trabalho" na realidade atinge a sua apoteose, conclusão de várias semanas de contínuo processo produtivo quando é adicionado mais um elemento: o público. É também um momento de aproximação aos padrões expositivos com seus rituais e sua distribuição de papéis.

O projeto foi criado e logo energizado por um coletivo de artistas, incluindo Roberto Cabot, a partir da proposta de parceria entre o grupo carioca Opavivará e Ricardo Ventura. O próprio coletivo era formado em parte de outros sub-coletivos. Esta primeira associação trouxe outras conexões que por sua vez conectaram com outras, criando uma rede orgânica de intenções e sensibilidades, produzindo uma espécie de "momentum" resultado das interações aparentemente aleatórias que ocorreram durante o período de produção. É óbvia aqui a relação dos processos desencadeados pela configuração do evento "Associados" com os protocolos (humanos) praticados na internet, com os modos de produção típicos da interação dentro de redes de dimensões superiores a "massa crítica", ponto em que pode surgir uma dinâmica autônoma dentro de uma rede de indivíduos.

Logo no início do projeto, que consistiu em pequenas reuniões informais de presença quantitativamente e qualitativamente variável, a questão que se colocou foi como apresentar um certo número de artistas num espaço sem apelar para a tautologia de uma curadoria (principalmente de artistas), sem tampouco cair na fantasia Hippie do "everything goes".

 

Ou seja, como selecionar sem a intervenção de uma "vontade curatorial individual", como criar um corpo coerente sem "grupo alvo", narrativa preestabelecida, ou temática literato-conceitual.

A estratégia combinada, muito característica para um núcleo inicial de cariocas, foi apostar na organicidade das relações impondo suavemente certas regras determinadas por situações induzidas. Por exemplo, foram combinadas duas reuniões regulares por semana, a partir de 6 semanas antes da "vernissage". Essa regularidade destacava as presenças e as ausências, sendo que quem comparecia com regularidade tinha naturalmente mais presença, mais espaço. Como sedimentos constantemente revoltos, a presença de cada agente no todo se traduziu pela sua participação, e não só temporal. O aporte em idéias, em energia, ou em simples simpatia, foi se acumulando para conformar a dita "ocupação coletiva", filtrados por processos espontâneos de compatibilidades ou incompatibilidades, capacidades e impossibilidades.

Houveram mais reuniões do que 2 por semana. Houveram festas, jantares. Muitos dos que haviam aparecido nas primeiras semanas desapareceram, associados de última hora tiveram aportes notáveis. A maior parte das intervenções surgiu dentro da dinâmica das conversas, discussões, dos encontros: das interações.

A lista de protocolos habituais na arte contemporânea que são questionados nesta experiência é longa.

Começando pela desintegração do triângulo artista-curador-público, de partida por não haver curadoria no sentido de um projeto individual de agenciamento dos potenciais poéticos dos artistas.

A seguir pela noção de "exposição", como se expõem exemplares de história natural, ou na lógica "mamãe, olha o que fiz!" da apresentação semi publicitária. Ou a exposição como instrumento da expressão de uma "visão" do curador. A própria distribuição das "obras" no espaço, e a própria definição do tipo de produção que as condições criadas produziram, já questiona os critérios habituais de montagem de uma exposição e de interação entre os diferentes trabalhos dos autores.

A noção de autor ficou também comprometida, já que apesar da presença de assinaturas mais ou menos claras e de certos reflexos mais ou menos territorialistas, as interferências e a ausência de policiamento curatorial deram origem a uma grande promiscuidade e indefinição de autorias ou de limites territoriais.

Rio de Janeiro, Setembro de 2007

 

 

 

As personal contribution, Roberto Cabot invited a professional call-girl for a public talk about contemporary art and culture in general during the opening night. The happening was registered in video under the title "I Love Nietzsche" and has its origin in talks during the meetings on participative strategies in art and historical roots of this sort of processes. We obviously came to talk about Beuys. The happening that ended up being called "I Love Nietzsche" was an experiment about those talks. As the idea came to transform Beuys performance "How to Explain Pictures to a Dead Hare" (1965) in a tropical synchretic hybrid, replacing attributes, as the rabbit by a prostitute. Someone mentioned Roberta, a call-girl that used to go to openings. We invited her for a meeting and she agreed on a participation. The result was "I love Nietzsche". The title refers to a sentence of Roberta, where she explains that Nietzsche is fundamental to her relationship to clients as a model to undestand and impose power. The talks go from considerations on the queston of identity, referring to Fernando Pessoa to the dilema of the insertion and participation of art in society..

   
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